Hoje tem espetáculo?
Tem sim senhor.
Às oito horas da noite?
Tem sim senhor.
Arrocha negrada.
O grito do palhaço ecoa nas quebradas do sertão, anunciando a chegada do circo. A meninada, com os números marcados nos braços, que dão direito a entrada grátis, acompanha o cortejo cômico nas estradas do Cariri, mantendo, inconscientemente, uma das mais autênticas tradições artísticas do mundo, protagonizadas por pessoas simples, geralmente, integrantes da mesma família, que carregam no sangue e na alma a arte circense. À noite, o circo pobre, sem cobertura, iluminado com a luz da lua, está cheio até a tampa. Moradores de todos os sítios da redondeza ocupam as arquibancadas seduzidos pelas atrações anunciadas pelo palhaço “Chega Mais” que, além de proprietário do circo, é locutor, trapezista, palhaço, joga faca e engole fogo.
Instalado no sítio Logradouro, município de Missão Velha, a fama do Grande Circo Nacional se espalha num raio de duas léguas. Os números artísticos como a “Cama Ardente”, que consiste em se deitar em cima de cacos de vidros, a “Vassoura Diabólica” , que dois homens não conseguem segurar e, principalmente, o palhaço “Chega Mais”, com o seu carro maluco e um estoque de piadas e gestos obscenos que são motivos de comentários nos alpendres das casas sertanejas alimentam o imaginaram de crianças e adultos... Para jovens e velhos têm o dom de voltar as lembranças da infância onde se mesclam risos e fantasias.
O que mais chama a atenção, entretanto, é a pobreza franciscana do circo que, segundo seu proprietário, não vale mais do que 2 mil reais. O sonho de “Chega Mais” é comprar uma lona de cobertura. Ele lamenta que, nesta época de inverno, a chuva prejudica a freqüência do público. Felizmente, Deus tem sido camarada, só está chovendo de madrugada, afirma. Com o ingresso de R$ 1.00 é difícil comprar uma lona que custa em torno de R$ 20,000,00, reclama, acrescentando que a gente escuta falar sobre estes projetos para a cultura popular, mas ninguém aparece para ajudar.
O mais complicado é a vida fora do espetáculo. Os seis integrantes da equipe dormem dentro de uma kombi, modelo 87, que foi comprada por R$ 500,00. O veículo é utlizado também como bilheteria. Mais dois carros, “caindo ao pedaços”, uma Belina 87 e um Fiat, que roda rebocado, fazem parte da frota. Juntos, não valem mais de R$ 1.000,00. A alimentação é feita ao ar livre, ao lado do circo, pela mulher, Sandra Alves Lopes, a “Sandrinha”, 32 que faz o papel de companheira, dançarina e deita sobre vidros na cama ardente. A sobrinha Juliana Tenório Alves, 11 anos é dançarina e sobe numa escada com um copo com água na cabeça.
Mais dois filhos, Taís, Tarcísio, menores de 13 anos e o sobrinho Alexandre fazem parte do elenco, mas só trabalham no final de semana. Eles estudam em Juazeiro do Norte. Por isso, o circo não pode se distanciar muito do Cariri para não prejudicar o estudo dos meninos que, segundo “Chega Mais“ gostam da vida de artistas, mas precisam estudar.
O orgulho de ser artista está estampado no rosto de cada um. A vida cigana, que tem como teto uma kombi velha, não arrefece o entusiasmo dos circenses. É uma vida boa aperreada, diz o palhaço “Chega Mais”, lembrando que a vida nômade é uma forma de fazer amizades. A gente conhece o mundo e os homens. Já andei o Nordeste inteiro. Não existe prazer melhor do que fazer o povo rir, garante.
“Chega Mais” lembra, com emoção, a passagem do circo de Marcos Frota por Juazeiro do Norte. “Nós assistimos o circo de graça. Quando a direção do espetáculo, soube que eles eram artistas de circo, não cobraram o ingresso. O palhaço recorda o fato como um reconhecimento da arte popular. Mas nem tudo é alegria. Numa cidade do Piauí, o Circo foi despejado porque um macaco mordeu a o dedo da filha do prefeito. O palhaço reclama também da polícia que exige entrada grátis para parentes e amigos. No interior da Paraíba, um bêbado derrubou o palhaço de cima das pernas de pau, “Eu só não me lasquei, porque caí por cima de uma banca de verdura, diz “Chega Mais”.
Francisco Alves Costa, conhecido como “Chega Mais”, 36 anos, nasceu e se criou dentro de um circo. Ele é filho do palhaço “Chambrego” que, por sua vez, fez parte de uma família de palhaços, dentre os quais, “Canecudo”, “Borrachinha”, “Motoca” e “Pinicotico”, que marcaram presença no Nordeste. Infelizmente, os circos estão em crise. Ao fazer este comentário, “Chega Mais” acrescenta que, enquanto vida tiver, vai manter o seu circo, aos “troncos e barrancos “. Quero morrer fazendo palhaçada, esse é o meu destino, a minha profissão. O palhaço confessa que não saberia fazer outra coisa. Sou palhaço dentro e fora do circo. A declaração de “Chega Mais” vem acompanhada de uma filosofia: “ a vida já é amarga de mais para a gente viver triste. É preciso levar um pouco de alegria para o povo sofrido, principalmente, os sertanejos que são os mais perseguidos.
Palhaço de grandes circos como o “Nacional Itália”, “Chega Mais” experimenta a emoção do dirigir o seu próprio espetáculo no rastro de seus antepassados, vivendo de arribada, descobrindo amigos, revelando novos artistas e mantendo uma tradição que vem sendo engolida pela globalização. São os artistas natos, sem nenhuma lapidação, forjados nos picadeiros dos circos pobres, sem nenhuma ajuda dos arautos da cultural popular.
Terminada a temporada, que dura geralmente 15 dias em cada sítio, o pequeno grupo mambembe, procura outra localidade, transportando na sua bagagem ilusões e gargalhadas. Como aves de arribação a procura da sobrevivência, eles seguem o caminho voluntário dos retirantes nordestinos, pulando de trapézio em trapézio, sem rede de proteção, enfrentando o perigo em nome da arte e tirando a máscara de um mundo sisudo que felizmente ainda se emociona e ri com o espetáculo.
quinta-feira, 27 de março de 2008
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